"De Sevilha disseram-me que a Pilar já vem a caminho" - disse Theresa ao entrar na sala.
"Mas o que é que eu tenho a ver se já lavaste o rabinho??? Oh Theresa, francamente!"
"MADREDEUS: OU PÕE O APARELHO OU AINDA NOS ZANGAMOS!"
"Quem é o fedelho pelo qual esperamos? Theresa, este assunto é muito sério! É só para ficar entre nós!"
Perdendo a paciência, Theresa dirige-se à escreveninha de pau santo.
Roda a pequenina chave... abre a portinhola central... retira uma caixa de dimensão média e... ...numa reviravolta brusca,dirige-se novamente para a idosa senhora onde, com a mesma brusquidão, lhe põe o aparelho auditivo à frente do nariz:
USE -O!!!
De olhos entristecidos, lamentando profundamente ter de estragar a sua imagem, Madredeus lá colocou o aparelho que regulou com todo o cuidado (não fosse fragmentar o que lhe restava de tímpano).
"Volto a repetir: a Pilar já vem a caminho."
"ÓPTIMO!" - disse Madredeus entusiasmada com a clareza das vibrações sonoras.
"Minha senhora, chegou a Srª Dª Mª do Carmo Drummond."
"Ouvi-te perfeitamente, Alice! Diz à senhora que entre!"
"Já cá estou, Madredeus!
Vim que parecia a voar!
Ai que cuidados os meus...
Mas que tens p'ra nos contar?"
"Ai Carminho, agora ouço-te perfeitamente! Qualquer dia ponho-me a cantar fados com versos teus! Uummm... até não seria má ideia fazer uma noite de fados no CVC, mas... bem, vamos ao que interessa."
"O que se passa então, Madredeus? Porque nos convocou no meio de tanto secretismo?" - perguntou Theresa muito apreensiva.
"Bem, há muito tempo - começou Madredeus - quando descobrimos os efeitos fantásticos do nosso chá, aterrorizou-nos a ideia do mesmo poder ser bebido por pessoas... digamos...pouco dignas... de má indole. As consequências, como devem calcular, seriam dramáticas."
"Eu nem posso imaginar
No horror que seria
Gentalha a aproveitar
Da nossa verde iguaría."
"Pois - continuou Madredeus em tom lento e ritmado - foi na sequência desta preocupação que a Amélinha foi ter com a Pilar, pedindo-lhe que nos ajudasse a precaver contra uma eventualidade destas."
Fazendo uma pequena pausa para respirar fundo, acrescentou:
"Através dos seus contactos entre os "gitanos de Sevilla", Pilar conseguiu uma "mézinha-roga-pragas" que adultera por completo o valor do chá se este for bebido abaixo da temperatura recomendada, ou seja, a 37,5º."
Fez nova pausa, desta vez para dar um gole no seu copo de água, recomeçando de seguida:
"Isto significa que: se o chá arrefecer e baixar dos 37,5º, os seus efeitos serão inesperados. Nem nós mesmas sabemos quais. A única coisa que sabemos é que ninguém assim poderá beneficiar do poder do nosso chá verde!"
"É verdade - interrompeu Theresa - já me ia esquecendo de vos avisar que o Zé Verde está em liberdade condicional. Parece que lhe puseram, imaginem só, um adorno de mulher, parece que ainda por cima eléctrico ou lá o que é, no pulso! Uma mariquice para ver por onde ele anda! Bem, de qualquer forma tudo está salvaguardado: o Armindo já tem instruções precisas para providenciar a ida semanal da nossa planta à associação. Mas retomemos o fio à meada..."
"Se é assim então,
Com alguma sorte,
O nosso ladrão
Vai perder o norte?"
"Bem Carminho, como vos disse, o efeito do chá arrefecido não sei qual é, mas de facto o tempo é mesmo o nosso factor de sorte!" - concluiu Madredeus, enquanto retirava o aparelho que a começava a incomodar.
.......................
Nesse mesmo início de tarde, a uns bons kms dali, comiam-se iscas com elas à moda do "Ti Marcelino", enquanto no hospital da CUF um paciente de nome Francisco corria pelo corredor do 3º andar bradando com voz forte: "ESPECULADÔ000, EU SOU UM ESPECULADÔ000!"



Desvairado, completamente doido perante os gritos lancinantes de Rosemary e os palavrões acutilantes, puxados às origens, das restantes presentes, Mel acorre ao patamar onde de joelhos no chão, de rabo para o ar (coisa que até era do seu agrado) e com a língua de fora começa a lamber sofregamente o empedrado do hall de entrada do palacete do séc. XIX, esperando de alguma forma reparar o mal feito.