terça-feira, 20 de maio de 2008

Encontros ao luar - solução anti-roubo

Já na Quinta de Stº Antonino, Madredeus aguardava serenamente que Theresa acabasse o telefonema que fora fazer no hall de entrada.
"De Sevilha disseram-me que a Pilar já vem a caminho" - disse Theresa ao entrar na sala.
"Mas o que é que eu tenho a ver se já lavaste o rabinho??? Oh Theresa, francamente!"
"MADREDEUS: OU PÕE O APARELHO OU AINDA NOS ZANGAMOS!"
"Quem é o fedelho pelo qual esperamos? Theresa, este assunto é muito sério! É só para ficar entre nós!"
Perdendo a paciência, Theresa dirige-se à escreveninha de pau santo.
Roda a pequenina chave... abre a portinhola central... retira uma caixa de dimensão média e... ...numa reviravolta brusca,dirige-se novamente para a idosa senhora onde, com a mesma brusquidão, lhe põe o aparelho auditivo à frente do nariz:
USE -O!!!
De olhos entristecidos, lamentando profundamente ter de estragar a sua imagem, Madredeus lá colocou o aparelho que regulou com todo o cuidado (não fosse fragmentar o que lhe restava de tímpano).
"Volto a repetir: a Pilar já vem a caminho."
"ÓPTIMO!" - disse Madredeus entusiasmada com a clareza das vibrações sonoras.
"Minha senhora, chegou a Srª Dª Mª do Carmo Drummond."
"Ouvi-te perfeitamente, Alice! Diz à senhora que entre!"
"Já cá estou, Madredeus!
Vim que parecia a voar!
Ai que cuidados os meus...
Mas que tens p'ra nos contar?"
"Ai Carminho, agora ouço-te perfeitamente! Qualquer dia ponho-me a cantar fados com versos teus! Uummm... até não seria má ideia fazer uma noite de fados no CVC, mas... bem, vamos ao que interessa."
"O que se passa então, Madredeus? Porque nos convocou no meio de tanto secretismo?" - perguntou Theresa muito apreensiva.
"Bem, há muito tempo - começou Madredeus - quando descobrimos os efeitos fantásticos do nosso chá, aterrorizou-nos a ideia do mesmo poder ser bebido por pessoas... digamos...pouco dignas... de má indole. As consequências, como devem calcular, seriam dramáticas."
"Eu nem posso imaginar
No horror que seria
Gentalha a aproveitar
Da nossa verde iguaría."
"Pois - continuou Madredeus em tom lento e ritmado - foi na sequência desta preocupação que a Amélinha foi ter com a Pilar, pedindo-lhe que nos ajudasse a precaver contra uma eventualidade destas."
Fazendo uma pequena pausa para respirar fundo, acrescentou:
"Através dos seus contactos entre os "gitanos de Sevilla", Pilar conseguiu uma "mézinha-roga-pragas" que adultera por completo o valor do chá se este for bebido abaixo da temperatura recomendada, ou seja, a 37,5º."
Fez nova pausa, desta vez para dar um gole no seu copo de água, recomeçando de seguida:
"Isto significa que: se o chá arrefecer e baixar dos 37,5º, os seus efeitos serão inesperados. Nem nós mesmas sabemos quais. A única coisa que sabemos é que ninguém assim poderá beneficiar do poder do nosso chá verde!"
"É verdade - interrompeu Theresa - já me ia esquecendo de vos avisar que o Zé Verde está em liberdade condicional. Parece que lhe puseram, imaginem só, um adorno de mulher, parece que ainda por cima eléctrico ou lá o que é, no pulso! Uma mariquice para ver por onde ele anda! Bem, de qualquer forma tudo está salvaguardado: o Armindo já tem instruções precisas para providenciar a ida semanal da nossa planta à associação. Mas retomemos o fio à meada..."
"Se é assim então,
Com alguma sorte,
O nosso ladrão
Vai perder o norte?"
"Bem Carminho, como vos disse, o efeito do chá arrefecido não sei qual é, mas de facto o tempo é mesmo o nosso factor de sorte!" - concluiu Madredeus, enquanto retirava o aparelho que a começava a incomodar.
.......................
Nesse mesmo início de tarde, a uns bons kms dali, comiam-se iscas com elas à moda do "Ti Marcelino", enquanto no hospital da CUF um paciente de nome Francisco corria pelo corredor do 3º andar bradando com voz forte: "ESPECULADÔ000, EU SOU UM ESPECULADÔ000!"

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Milagre no Montijo












....Enquanto isso, na vizinha auto estrada, rolava um belo Toyoda AA de 1936, provavelmente um dos poucos modelos ainda em circulação, transportando com toda a raça , Raul e Pilar, os Marqueses Ginecológicos. No banco da frente, Sertório, o velho chofeur que servira o Generalíssimo durante a guerra civil, conduzia imperturbável indiferente aos olhares curiosos dos outros ocupantes daquela via de acesso a Lisboa.
No largo banco de trás Raul dormitava, digerindo o pequeno almoço tomado no Isaías de Estremoz, enquanto Pilar folheava displicentemente uma reportagem de Júlio Iglesias numa Hola desactualizada. Um pequeno desnível na estrada fez com que Pilar reparasse num sinal que informava da proximidade da cidade do Montijo....que por sua vez desencadeou em Pilar um desejo urgente por açorda com jaquinzinhos fritos, como só na tasca do Marcelino sabiam preparar. .....enfim desejos na minha idade, pensou assustada... vamos ver
-SERTÓRIO , já para o Montijo!! ordenou firme como sempre ao mesmo tempo que acendia um dos Quintero Corona enviados de Cuba, semanalmente em mão, juntamente com um ramo de 62 rosas vermelhas com um cartão dourado assinado,singela e misteriosamente, F.
Acostumado aos grandes carros de estado, Sertório guinou indiferente em direcção à nova cidade do deserto português criando o caos naquele tranquila manhã de domingo, levando o AA preto com o velho brasão dos marqueses estampado na porta por estreitas estradas ao encontro de um curioso destino. A "Regional Casa de Pasto do Boi da Areia " ,designação oficial da tasca do Marcelino, era famosa pelas suas Iscas fritas, Caracoletas assadas, várias açordas e pratos com peixe do rio que acompanhava invariavelmente com arroz malandrinho dos legumes da sua pequena horta . Situava-se nas antigas cocheiras de um palacete aburguesado onde brilhava um enorme painel de azulejos do período revolucionário ilustrando cenas do quotidiano rural Ribatejano.
Este nobre edifício,berço de um ilustre escanção da corte de D. Manuel II, fora ocupado em 74 pela cooperativa agrícola dos Foros do Arrão para servir como colónia balnear aos seus mais importantes ideólogos . Posteriormente, no período da ditadura cavaquista, foi entregue, por ordem do conselho de ministros, a uma fundação de cariz antropo-profilatico com a designação enigmática IBS. Falou-se em compadrios com membros do governo, subornos, sobreiros,aeroportos,TgV, interesses estrangeiros.... mas como sempre tudo ficou em águas de bacalhau, ou melhor em Águas de Moura .
Adelante.
A troco de umas pataniscas e uns copos do tinto da casa, cedeu esta organização o espaço para o bom do Marcelino se instalar após a infeliz colhida da sua rulote vermelha, desferida pela malhada,vaca experiente em largadas e ao que consta apreciadora de palheto nas festas do colete verde em Alcochete.
Estacionado o nobre "coche" sob um centenário sobreiro que miraculosamente sobrara da fúria golfista e do nacional porreirismo, e sem esperar que Sertório lhe abrisse como de costume a porta, Pilar saltou para o empedrado fronteiro à tasca, cuspindo o resto ainda fumegante do charuto, levantou altiva a cabeça, compôs o cabelo negro avermelhado armado em balão e paralisou tal cão perdigueiro ao deparar com uma bela lebre deitada em plena charneca alentejana .
Da porta do palacete saia uma luz misteriosa, intensíssima, oscilando entre o vermelho e o verde fluorescente com laivos amarelos de permeio, acompanhada de sons gutorais que não conseguia definir. Raul, que sempre se demorava a compor com uma nova aplicação de "brilcream" o penteado irrepreensivelmente puxado para trás parecendo esticar a testa, agarrado ao bastão de prata trabalhado , exclamou iluminado:
-Es un miracole conho......Pilarzita carinho mio .....es la Virgen de la Luz persuposto....
e correram os dois na esperança de presenciar algo de sobrenatural. Lembremos que ambos eram devotos de Lourdes, de Fátima,da Virgem del Rossio e do Real Madrid, e que Pilar sempre nutrira uma grande admiração por Joana D`Arc. Na cabeça de Raul, atropelavam-se ideias prioritárias :
-Construir uma Basílica (basílica da Luz, Não não é a catedral do slb!!!! há que estabelecer diferenças)
-Ouvir a mensagem que muito provavelmente teria a ver com a unificação sob sua hegemonia dos dois reinos desavindos, a IBÉRIA .(ora os nascimentos já nós controlamos).
-Procurar uns servicios porque la próstata está apertando.
Abriram a velha porta do palacete deparando com Mel rodeado pelos outros confrades do IBS.
Mel brilhava de uma maneira sobrenatural. Entraram, prostraram-se de joelhos com o rosto em baixo sem saber o que pensar.
Rosemary, reconhecendo os marqueses, rapidamente elaborou um plano para tirar partido desta ocasião única. Fazendo sinal aos demais para que se calassem, iniciou uma improvisada ladainha onde Mel era descrito como um profeta e ela a sua voz. Entretanto a língua de Mel inchara imenso impedindo-o providencialmente de falar. Rosemary ensaiou uma pequena ordem:
- O Santo Templer - improvisou lembrando-se da série televisiva com Roger More - pede iscas com elas para todos já !!!! .....enfim sempre era uma ordem possível e dava jeito porque já se comia qualquer coisa.
De pé num salto Pilar e Raul correram à casa de pasto, atropelando pelo caminho o pobre Sertório que esperava junto à porta, compondo as esporas que insistia em usar.
-Sr Marcelino rrrrapido quiero todas las iscas que tiennes subitoooooo.......... gritaram em unisomo . E isso bem arranjado que são para o St Templer,explicaram.
Marcelino correu à cozinha sem perceber nada daquele novo santo , mas isto dos nostros irmanos nunca foi muito linear, pensava lembrando-se das lições de história que Dª Augusta lia da selecta da terceira classe. Bom, desde que paguem....que empanturrem lá o santo.
-Mirr, onde estás raio da mulher !!!
Mirpurrina, protestou, era a hora da Escrava Isaura na tv e isso era sagrado. Retornada de África, Mirpurrina casara em boa hora com Marcelino, que conhecera, soldado nos bailes de beneficiencia do Uíge. Com a revolução, voltaram para a metrópole, abandonando a pequena mercearia de bairro que edificaram com esforço e carinho, estabeleceram-se ali no Montijo primeiro com a velha rulote vermelha e agora na já nossa conhecida casa de pasto, ambicionando criar uma cadeia de pronto a comer com comidas regionais.

sábado, 3 de maio de 2008

Encontros ao luar :


"- Finalmente chegámos! Ahhh... como é bom passar o rio... ...e ainda chamam a esta linda zona de deserto! Que gente! Aqui respira-se outro ar... ...o ar da nossa infância!"
Enquanto assim dizia, o magnífico Bentley, primorosamente polido e conduzido por Ambrósio, estacionou mesmo à porta da sede da IBS: casa grande, apalaçada , ou antes, "apalhaçada" - como dizem por aquelas bandas - forrada de azulejos, onde sobressai um painel com imagens de campinos a aparcar o gado.
"-Senhora, deseja algo mais?"
"-Não, Ambrósio. Penso que já devem ter chegado todos. No meu telefonema imprimi um toque de urgência."
Rosemary entrou então no nº 15 daquela Rua larga e arejada de Montijo levando, bem apertado junto ao seu enorme peito, o velho malão de corcodilo.
No cimo da escadaria empedrada havia quem a esperasse ansiosamente:
Ermelinda Santos, antiga criada de fora de Dadinha Bettencourt, agora mais conhecida por Ermely; Leonarda da Franga, outrora cozinheira de Madredeus Collares Bourbón y Tarragona, dando agora pelo nome de Leony; Idalina Bexiga, ex-criada de quartos de Mª Cândida Peixoto de Lemos, desde há uns anos apelidada de Bexy; Belmira Formas, antiga lavadeira de Maria José Fortunato Salgado de Castel Branco, conhecida por Miray; Adozinda Lampreia, antiga responsável pela jardinagem da casa de férias de Mª Theresa, a quem chamam Dozy; e Ezequiel, ex-motorista de Carminho Drummond, agora conhecido por Mel e também pelo seu toque efemininado.
Ao verem Rosemary aproximar-se, subindo a escadaria com um sorriso victorioso, explodiram em aplausos: BRAVO! BRAVO! BRAVO! CONSEGUIMOS!!!
No meio de tamanha emoção, não resistindo mais, Mel dirigi-se todo lampeiro a Rosemary e, num abraço profundo, faz com que o malão, apertado entre os seus braços, salte em efeito de sabonete, caindo depois, degrau a degrau, até chegar ao patamar onde, abrindo-se abruptamente, deixa escapar o bule que se desfaz em mil pedaços...
Desvairado, completamente doido perante os gritos lancinantes de Rosemary e os palavrões acutilantes, puxados às origens, das restantes presentes, Mel acorre ao patamar onde de joelhos no chão, de rabo para o ar (coisa que até era do seu agrado) e com a língua de fora começa a lamber sofregamente o empedrado do hall de entrada do palacete do séc. XIX, esperando de alguma forma reparar o mal feito.
Nisto faz-se um silêncio aterrador.
Levantando-se cambaleante, com a língua meia ensaguentada, cortada pelos pequenos pedaços de limoges nela crivados, de olhos muito, mesmo muito brilhantes, adquirindo repentinamente um tom esverdiado, Mel pronuncia solenemente:
"-MENINAS: ESTOU A FICAR CHEIO DE ... !"

Köniek Osga