sexta-feira, 16 de maio de 2008

Milagre no Montijo












....Enquanto isso, na vizinha auto estrada, rolava um belo Toyoda AA de 1936, provavelmente um dos poucos modelos ainda em circulação, transportando com toda a raça , Raul e Pilar, os Marqueses Ginecológicos. No banco da frente, Sertório, o velho chofeur que servira o Generalíssimo durante a guerra civil, conduzia imperturbável indiferente aos olhares curiosos dos outros ocupantes daquela via de acesso a Lisboa.
No largo banco de trás Raul dormitava, digerindo o pequeno almoço tomado no Isaías de Estremoz, enquanto Pilar folheava displicentemente uma reportagem de Júlio Iglesias numa Hola desactualizada. Um pequeno desnível na estrada fez com que Pilar reparasse num sinal que informava da proximidade da cidade do Montijo....que por sua vez desencadeou em Pilar um desejo urgente por açorda com jaquinzinhos fritos, como só na tasca do Marcelino sabiam preparar. .....enfim desejos na minha idade, pensou assustada... vamos ver
-SERTÓRIO , já para o Montijo!! ordenou firme como sempre ao mesmo tempo que acendia um dos Quintero Corona enviados de Cuba, semanalmente em mão, juntamente com um ramo de 62 rosas vermelhas com um cartão dourado assinado,singela e misteriosamente, F.
Acostumado aos grandes carros de estado, Sertório guinou indiferente em direcção à nova cidade do deserto português criando o caos naquele tranquila manhã de domingo, levando o AA preto com o velho brasão dos marqueses estampado na porta por estreitas estradas ao encontro de um curioso destino. A "Regional Casa de Pasto do Boi da Areia " ,designação oficial da tasca do Marcelino, era famosa pelas suas Iscas fritas, Caracoletas assadas, várias açordas e pratos com peixe do rio que acompanhava invariavelmente com arroz malandrinho dos legumes da sua pequena horta . Situava-se nas antigas cocheiras de um palacete aburguesado onde brilhava um enorme painel de azulejos do período revolucionário ilustrando cenas do quotidiano rural Ribatejano.
Este nobre edifício,berço de um ilustre escanção da corte de D. Manuel II, fora ocupado em 74 pela cooperativa agrícola dos Foros do Arrão para servir como colónia balnear aos seus mais importantes ideólogos . Posteriormente, no período da ditadura cavaquista, foi entregue, por ordem do conselho de ministros, a uma fundação de cariz antropo-profilatico com a designação enigmática IBS. Falou-se em compadrios com membros do governo, subornos, sobreiros,aeroportos,TgV, interesses estrangeiros.... mas como sempre tudo ficou em águas de bacalhau, ou melhor em Águas de Moura .
Adelante.
A troco de umas pataniscas e uns copos do tinto da casa, cedeu esta organização o espaço para o bom do Marcelino se instalar após a infeliz colhida da sua rulote vermelha, desferida pela malhada,vaca experiente em largadas e ao que consta apreciadora de palheto nas festas do colete verde em Alcochete.
Estacionado o nobre "coche" sob um centenário sobreiro que miraculosamente sobrara da fúria golfista e do nacional porreirismo, e sem esperar que Sertório lhe abrisse como de costume a porta, Pilar saltou para o empedrado fronteiro à tasca, cuspindo o resto ainda fumegante do charuto, levantou altiva a cabeça, compôs o cabelo negro avermelhado armado em balão e paralisou tal cão perdigueiro ao deparar com uma bela lebre deitada em plena charneca alentejana .
Da porta do palacete saia uma luz misteriosa, intensíssima, oscilando entre o vermelho e o verde fluorescente com laivos amarelos de permeio, acompanhada de sons gutorais que não conseguia definir. Raul, que sempre se demorava a compor com uma nova aplicação de "brilcream" o penteado irrepreensivelmente puxado para trás parecendo esticar a testa, agarrado ao bastão de prata trabalhado , exclamou iluminado:
-Es un miracole conho......Pilarzita carinho mio .....es la Virgen de la Luz persuposto....
e correram os dois na esperança de presenciar algo de sobrenatural. Lembremos que ambos eram devotos de Lourdes, de Fátima,da Virgem del Rossio e do Real Madrid, e que Pilar sempre nutrira uma grande admiração por Joana D`Arc. Na cabeça de Raul, atropelavam-se ideias prioritárias :
-Construir uma Basílica (basílica da Luz, Não não é a catedral do slb!!!! há que estabelecer diferenças)
-Ouvir a mensagem que muito provavelmente teria a ver com a unificação sob sua hegemonia dos dois reinos desavindos, a IBÉRIA .(ora os nascimentos já nós controlamos).
-Procurar uns servicios porque la próstata está apertando.
Abriram a velha porta do palacete deparando com Mel rodeado pelos outros confrades do IBS.
Mel brilhava de uma maneira sobrenatural. Entraram, prostraram-se de joelhos com o rosto em baixo sem saber o que pensar.
Rosemary, reconhecendo os marqueses, rapidamente elaborou um plano para tirar partido desta ocasião única. Fazendo sinal aos demais para que se calassem, iniciou uma improvisada ladainha onde Mel era descrito como um profeta e ela a sua voz. Entretanto a língua de Mel inchara imenso impedindo-o providencialmente de falar. Rosemary ensaiou uma pequena ordem:
- O Santo Templer - improvisou lembrando-se da série televisiva com Roger More - pede iscas com elas para todos já !!!! .....enfim sempre era uma ordem possível e dava jeito porque já se comia qualquer coisa.
De pé num salto Pilar e Raul correram à casa de pasto, atropelando pelo caminho o pobre Sertório que esperava junto à porta, compondo as esporas que insistia em usar.
-Sr Marcelino rrrrapido quiero todas las iscas que tiennes subitoooooo.......... gritaram em unisomo . E isso bem arranjado que são para o St Templer,explicaram.
Marcelino correu à cozinha sem perceber nada daquele novo santo , mas isto dos nostros irmanos nunca foi muito linear, pensava lembrando-se das lições de história que Dª Augusta lia da selecta da terceira classe. Bom, desde que paguem....que empanturrem lá o santo.
-Mirr, onde estás raio da mulher !!!
Mirpurrina, protestou, era a hora da Escrava Isaura na tv e isso era sagrado. Retornada de África, Mirpurrina casara em boa hora com Marcelino, que conhecera, soldado nos bailes de beneficiencia do Uíge. Com a revolução, voltaram para a metrópole, abandonando a pequena mercearia de bairro que edificaram com esforço e carinho, estabeleceram-se ali no Montijo primeiro com a velha rulote vermelha e agora na já nossa conhecida casa de pasto, ambicionando criar uma cadeia de pronto a comer com comidas regionais.

2 comentários:

Osga Esparramada disse...

Os Encontros ao Luar estão a tomar um ritmo alucino-hilariante!!!
Está o máximo, Zorglub Köniek!!!
Não sei se rir alto e sozinha é sinónimo de senilidade...

Zorglub Köniek disse...

osz

fiz algumas pequenas alterações ao Milagre no Montijo


ZZZZZZZZZZZZZZZZzzzzzzzzzzzzzzzzzzz