sábado, 12 de janeiro de 2008

Encontros ao luar - A epifania

- Estou, Theresa?!
Oh filha, nem imaginas o que aconteceu!
E tinha mesmo de ser eu!
Um delinquente roubou-me a carteira!
O bule lá dentro, sem eira nem beira!
Assim mesmo, de caras!
Estou a tremer que nem verdes varas!

Theresa sentiu um calafrio a percorrer-lhe o corpo. Para disfarçar o choque, saiu para fora do quarto privativo, tentando mexer-se com a maior naturalidade possível.

- Não posso acreditar! E tens a certeza de que foi só um delinquente, Carminho? Não seria alguém que sabia do nosso segredo? E o que é que eu digo à Amelinha? – perguntou Theresa, atropelando as palavras ao telefone.

- Por favor, à Amelinha nem falar!
Não a podemos perturbar!
Inventa um imprevisto qualquer!
Uma coisa de mulher!
O Armindo já foi à esquadra,
Para tratar da papelada.
Do bule nem vai falar
Que dele ninguém se pode inteirar!
Espero que tenha sido mesmo só um delinquente,
Não consigo pensar a quente!
Temos de ficar caladas,
Ai se o chá pára nas gargantas erradas!

Theresa despediu-se, aflita e regressou ao quarto, enquanto tentava esconder o ar comprometido. Amelinha observava-a com um olhar de interrogação.

- Que se passa, Theresa? A Carminho sempre vem?

Theresa acelerou o raciocínio e procurou uma mentira branca.

- Vê lá tu que ela afinal não pode. Tropeçou num buraco quando ia a sair de casa e torceu o pé. Parece que não é nada de grave, mas está com a perna estendida e gelo no inchaço. Vai ficar de repouso hoje.

Madredeus continuava surda que nem uma porta…

- O quê? Encontrou o Zé? Vai para a Lisnave? Perdida com um palhaço?! Tem um almoço hoje? Oh, filha, não percebo nada!

Elevando o tom de voz e baixando o nível de paciência, Theresa replicou-lhe:

- Depois explico-te, Madredeus. Agora, temos de ir andando, que tenho de ir para o cabeleireiro. Esta semana tem sido uma correria tão grande, que ainda nem tive tempo compor o cabelo.

Amelinha estava desgostosa por ver o delicado chá adiado, mas, sem outro remédio, despediu-se das amigas, estranhando só ao de leve aquela visita que de repente se tinha tornado de médico. Despediu-se das amigas e respirou fundo.

Meia hora depois, Theresa estava em casa com Madredeus, que continuava sem perceber porque tinha sido arrancada do quarto de hospital da Amelinha e massacrava a amiga com interrogações. Longe de ouvidos indiscretos, Theresa finalmente berrou o dramático incidente do bule. Madredeus ficou subitamente silenciosa e o seu olhar de desorientação apagou-se. A sua testa enrugou-se ainda mais e os seus olhos ficaram pensativos.

- Que podemos fazer agora, Madredeus?!... Eu disse: E AGORA? QUE FAZEMOS?

- Eu ouvi-te, filha. Calma. Eu já temia o dia em que isto ia acontecer… Nunca pensei que fosse tão depressa…

- O que queres dizer com isso? Madredeus? Mas tu sabes de alguma coisa que…?

Madredeus limitou-se a fitar Theresa e, num tom grave, instruiu-lhe:

- Não podemos perder mais tempo. Temos de falar já com a Pilar.

Entretanto, na CUF, Amelinha continuava ligeiramente amuada por não conseguir o seu precioso líquido verde. “Que maçada. Aqui presa e, agora, nem a alegria do chá”.

O paciente misterioso do 301 recomeçou a gritar. “E agora mais este, para me arrepiar. É que não dá sossego a ninguém! Quase que parece uma voz de outra vida. Mas porque é que parece que já o ouvi?! Que coisa!... Nem descansar posso. É especulador, especulador, especulador, não sai disto… Meu Deus!!...”. Amelinha subitamente interrompeu o seu rol de queixas mentais. “Meu Deus!... Mas é… Mas não pode ser! Não pode ser ele!... Esta voz!... Esta voz!... É a voz…. É a voz do Xico!!!”. Subitamente, Amelinha sentiu-se açambarcada por um tsunami do Passado…

Köniek Mipo

sábado, 5 de janeiro de 2008

Encontros ao Luar - O Furto

"ESPECULADÔÔÔÔÔ...."

"Que se passa? Que gritos alucinantes são estes?" - perguntou Amelinha à empregada da limpeza que tinha vindo a uma hora suspeita fazer o aceio do quarto.
"Não sei, minha Senhora, mas assim que acabar de limpar o seu quarto irei informar-me" disse a rapariga enquanto limpava freneticamente a mesa de cabeceira e principalmente o telefone, rodando o bocal e introduzindo-lhe um aparelho de escuta.

"Theresa, Madredeus, que bom vê-las!"
"Esta CUF está cada vez pior, Amélinha! Vai um reboliço aqui no corredor..."
"Pois, pois é um espectáculo amador!"
"Não, Madredeus, é mesmo a realidade!"
"Eu sei que tenho muita idade, mas não precisavas de dizer..."
"Olha, não interessa! Diz-me Amélinha, como te sentes?"
"Sabem o que sinto? Duas coisas estranha: uma é um arrepio sempre que ouço gritar por ESPECULADÔ, parece que reconheço alguma coisa naquela voz, e outra é uma saudade enorme do nosso poderoso chá. Theresa, sabes o nº de telefone da Carminho Drummond?"
"Claro! É o 21 8111100!"

"Estou? Carminho? Daqui fala Amélinha!"

"Amélinha, como está?
Quando lhe dão alta?
Faz-lhe falta o nosso chá
E um croissant da Ribalta!"
"Oh filha, agora deu-te para me tratares por você???"
"É só para poder rimar
Dar um ar da minha graça
Eu não consigo parar
Isto é coisa que te maça?"
"Claro que não, Carminho, há anos que te conheço assim... olha, deixa lá estar. Se isso te dá prazer... Bem, para te responder (e não em verso): Estou melhor, mas só te digo que sinto mesmo uma louca vontade de tomar o nosso chá Verde. Tenho a certeza de que "ele"me irá arrebitar. Quanto ao croissant da Ribalta... dispenso-o! Vinha-te, pois, pedir que providenciasses tudo de forma a eu poder tomar o chá às 17 h de hoje. Achas que posso contar contigo?"
"De tudo vou já tratar
Sem esquecer a nossa planta
Levo o chá a fumegar
Vai preparando a garganta!"
"Obrigado, Carminho, eu sabia que podia contar contigo!"

Eram 16.20 quando Armindo, com a sua farda já coçada, se dirigia a passo lento e ritmado em direcção ao taxi que Hélio conduzia - desta vez transportando Carminho Rodrigues Sampaio e Olazabal Drummond.
Vinha com a velha maleta em pele de corcodilo, agarrada a si junto ao peito, com todo o cuidado para que nada do conteúdo do bule - sublimemente acondicionado - se entornasse, quando de repente é interceptado por um senhor de meia-idade:
"Por favor, pode dizer-me onde fica a Rua das Praças?"
Agarrando a maleta só com a mão direita, preparava-se para indicar com a esquerda onde ficava aquela rua, quando de repente o dito senhor arranca a maleta da sua pobre e engelhada mão e, numa correria desenfreada, desaparece da vista do velho Armindo.
Com Armindo em estado de choque e Carminho gritando "Ele leva o malão: Agarra que é ladrão!", Hélio taxista fica a brincar com os seus pensamentos: "como é bom transportar estas xenhoras do XVX... acontexem-lhes mil e uma peripéxias e rexebo xempre óptimas gorxetas..."

Já junto à Basílica da Estrela um senhor de meia-idade entra num belíssimo Bentley estacionado junto ao gradeamento. Ofegante diz:
"Senhora, trouxe-lhe algo!"
"Bravo, Ambrósio!" - respondeu-lhe a voz aguda de Rosemary W. - "Vou finalmente perceber qual o segredo secreto desta poção! Anos e anos fingindo-me esquecida, despercebida, alheada... acabaram por dar os seus furtos, aliás, frutos!"
"Senhora, tiro-lhe o chapéu!" - e pousando o boné no lugar do morto, Ambrósio ligou a viatura que, em ritmo lento, seguiu na direcção da Assembleia da República.







KöniekOsga

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Encontros ao luar - Porque no te callas?!

Maria Theresa Mello Sampaio Metello Guimarães olhava, pensativa, da janela do seu quarto para a rua. Na realidade, esperava o taxi de Helio que trazia a sua amiga Maria da Madredeus e que passaria por sua casa, antes de rumarem, já as duas, ao hospital da CUF, onde, aínda acamada, se encontrava Amelinha.
Perdida nos seus pensamentos, em que as questões do avançar da idade tomavam uma dimensão crescente, não ouviu Alcídia, a sua velha criada, chamar por si.

-Minha Senhora... ... Minha Senhora...
-Diga Alcídia... estava aqui a ver se via a Sra. D. Mª da Madredeus chegar. Já cá devia estar, coitada... anda cada vez com mais dificuldade.
-Mas, oh Minha Senhora, é o telefone! Não consigo perceber bem...mas parece-me ser do estrangeiro.
-Do estrangeiro? Não será nenhum dos Meninos, Alcídia? Deixe ver- A tia Maria Theresa, nada adepta das novas tecnologias, foi atender o telefone preto e pesadão à saleta que, muito pomposamente, chamavam a “casa dos telefones”. Sentou-se na “bergère” D. João V, cruzou a perna e pegou no auscultador – Estou...? Quem fala?- perguntou, franzindo o sobrolho.
-Hola, que tal?- responderam do outro lado da linha.
-Pi...Pi...Pil...Pilar, és tu?
-Porsupuesto. Claro que si, mujer! Soy Pilar. Oiga...que pasa con Amelita, por Dios?
- Ai, Pilar...há tanto tempo que ninguém sabia de ti...sabes, bem...é que a Amelinha sentiu-se mal e desmaiou lá no clube, na Sacramento à Lapa... mas como é que soubeste que lhe tinha acontecido alguma coisa...? Foi assim, de repente... agora está internada na CUF da Infante Santo e...e...e eu...bem, até estou à espera da Madredeus para irmos juntas visitá-la mas não há maneira de chegar o taxi...Bem sei que vem de longe, lá de Sto. Antonino...coitada da Madredeus, para lá desterrada...mas é o que ela quer, ou pelo menos é o que diz. Eu, naquela idade nunca me aventuraria a viver tão longe! Olha a Amélinha, se não estivesse ao pé dum hospital! Até fui eu que liguei para as ambulâncias que vieram logo, depois de eu lhe ter dado duas aspirinas...como me tinha ensinado a minha neta Mafaldinha...lembras-te da minha neta, não lemb...
-Por que no te callas?!- interrompeu Pilar, furibunda

Maria Theresa gelou. Acontecia-lhe sempre o mesmo quando estava na presença de Pilar ou, como neste caso, bastando ouvir a sua voz. Fazia sempre o que não devia e, certo e sabido, seria sempre repreendida ou mesmo humilhada. Mas não era só ela. Todas as amigas sentiam um enorme respeito, mesmo algum medo, por esta personagem déspota, de porte altivo. Pilar, Marquesa Ginecológica, pertencia aos “Grandes de España”, próxima da Família Real, desde Afonso VI de Leão e Castela que a sua família aconselhava, nos mais diversos planos, as várias Casas Reais que vieram a formar a actual Espanha. O mesmo acontecera, aínda há relativamente pouco tempo, com uma cimeira ibero-latina, no Chile.

Os Marqueses Ginecológicos tinham, de facto, muito poder e corriam rumores de que se estariam a empenhar na anexação de Portugal. O próprio governo português dera recentemente um forte contributo nesse sentido, ao mandar fechar todas as maternidades da zona raiana, fazendo com que milhares de mulheres portuguesas rumassem aos hospitais espanhóis. Badajoz era um exemplo vivo disso mesmo. Oriundos de Sevilha, os Marqueses Ginecológicos, Pilar e Raúl, descendiam duma família cigana e era bem patente essa herança em tudo aquilo que faziam. Sem escrúpulos, recebiam dez por cento de todas as consultas de obstetrícia e ginecologia da região da Andaluzia. Paquito e Juanito, seus filhos mais velhos, asseguravam-se de que a situação não saíria do seu controlo.

-Sim, sim...Pilar, eu calo-me.
-Mira, Teresa, hay cosas que desconoces. Me voy a Lisboa ahora mismo, mujer. Mañana hablaremos mejor, vale?
-Concerteza...vale, vale...

Maria Theresa pousou o telefone, tremendo aínda. Levantou-se e, cambaleando, dirigiu-se de novo à janela do seu quarto. Afastou a cortina e vislumbrou um taxi ao fundo da rua. Esperou que parasse à sua porta e desceu ao encontro da sua amiga que, embora uns bons anos mais velha, aínda era o seu alicerce.

-Olá Madredeus, nem queiras saber o que me aconteceu agora mesmo...
-Não obrigada, filha. Já almocei e nunca iria comer uma “sandes” de torresmo! Olha só para o que te deu agora!!!
-Não é isso, que disparate... Ai, deixa lá...na CUF conto-te- e, debruçando-se sobre o banco da frente, diz ao Hélio –Vamos, então, para a CUF, Hélio-

O percurso foi rápido e sem incidentes de maior. Madredeus aínda dormitou, com o andarilho a seu lado, batendo-lhe na cabeça a cada curva ou buraco, fazendo-lhe soltar um gemido ou um articular imperceptível. Já Maria Theresa tremia com a expectativa de ter, a par com as amigas, de conviver, não sabia por quanto tempo, com a terrível Pilar.
Chegadas ao hospital e depois de dez minutos a tentar forçar o andarilho para fora do taxi e outros dez ao ritmo da tia Maria da Madredeus até à porta, ambas se deparam com uma anormal concentração de médicos, enfermeiros e outros empregados da CUF.

-O que se passa aqui?- perguntou a tia Maria Theresa a um maqueiro de olhar arregalado.
-Olhe, Minha Senhora, é um senhor que está no 301 que não pára de gritar, mas é tão assustador que já não há quem queira por lá passar...
-Não me diga! Olhe que eu tenho uma amiga no quarto 303. Não me diga que está sozinha?

De repente, num uivo arrepiante, ouve-se por todo o hospital – Especuladôôôôôôôuu, ê sôu espacüladôôôôô...-Ah...e não é que, no meio disto tudo, me esqueci do espanador que a Tatão me pediu...? Ou não era um espanador...?- exclamou, agarrada ao seu andarilho, a tia Maria da Madredeus.*

*Köniek Checo

Encontros ao luar - A surdez



Enquanto isso, na Quinta de Sto Antonino, a uns bons kms dali, a tia Mª Madredeus suspirava de ansiedade: “Aaaahhhh.... Serei eu mais uma vez a culpada...?”

Os remorsos eram como pequenos caroços crivados de pioneses que subiam e desciam no estômago em forma de espiral: “Será que contribuí para o mau estar da Amélinha?”

“Não me recordo, mas com tanta desgraça que já aconteceu àquela família... ...e só à minha custa... Aaaahhhh....”

Não podendo mais conter as recordações, que explodiram na sua memória como foguetes ensurdecedores, LEMBROU-SE DE UM DAQUELES DIAS!

Sim, daquele dia ventoso quando, ao embalar numa descida agarrada ao carrinho de rolamentos que Olímpio tinha construído para si, saltou sobre um canteiro do jardim da família da sua amiga Amélinha, e veio embater com força na avó Emergenciana.

POBRE SENHORA! COMO TINHA FICADO!

Esta era uma imagem que permanecia gravada na sua memória como um quadro vivo: a velha senhora, toda engelhada pelos anos, ali caída de pernas para o ar, com as saias pela cintura , de boca escancarada e olhos MUITO, MUITO abertos... ...com o tosco travão de mão do carrinho de rolamentos enterrado na testa, qual unicórnio espantado!!!

MEU DEUS! QUE HORROR DE DIA: o vento soprava, soprava, a criadagem gritava, gritava, a cabeça rodava, rodava...

Ela e a sua louca mania de andar de rodas, já tanto mal tinham causado à doce família da Amélinha...

Primeiro foi com o carrinho de bébé, depois com o triciclo, a seguir com o carrinho de rolamentos, pouco tempo depois com os patins, mais tarde com a viatura do Alfredo, há uns 20 anos com o carrinho de chá.... e agora seria culpa do andarilho? Que mais poderia acontecer...

Nisto os seus pensamentos foram bruscamente interrompidos por um “...senhora, o belo anarquista pergunta se a senhora ainda monta?”

“O QUÊ, RAPARIGA, ESTÁS DOIDA!?!”

“Mas..., oh minha senhora, eu só disse que está ali fora o Hélio taxista e que pergunta se a senhora já está pronta?”

“AH!... Olha, diz-lhe que dentro de 15 minutos estarei à porta! Ainda tenho de falar à menina Tatão e depois, como sabes, demoro sempre um bocadinho a deslocar-me”

“Que aborrecimento, não consigo ouvir nada sem o aparelho... mas fica-me tão mal! Ummm... deixa cá ver... Tatão, Tatão... Ora bem, Tatão: 9 6 0 5 5 5 0 0 .... Estou? Tatão? És tu, filha? Está tudo bem? E como estão os teus gémeos? Ouvi dizer que o Bernardo já está a acabar o curso de Arquitectura! E o Frederico, Tatão? Ainda namora com aquela pequena... a Vanessa qualquer coisa? AH! Pois é, pois é... Olha, filha, deixa estar que ele ainda acaba por abrir os olhos (isto se entretanto não der uma valente cabeçada). E já estás na CUF? E então? Como está a mãe? O QUÊ? NÃO TE OIÇO! Ah, agora sim! Mas que gritaria é essa? A TUA MÃE AGARRADA A UM TIO LOURO? O QUÊ? AH! ENROLADA NUM FIO DE SORO! MAS PORQUÊ? TENTOU LEVANTAR-SE? TATÃOZINHA, O QUE SE PASSA? O QUÊ ? ESTÃO A FRITAR UM PATO MOLHADO? OH FILHA, QUE CONFUSÃO! NÃO TE ENTENDO... AH... ESTÃO A GRITAR NO QUARTO AO LADO!!! PEDEM UM ESPANADOR???? AH, GRITAM POR ESPACULADÔÔÔ! CREDO, FILHA, O QUE É ISSO? OLHA, TATÃOZINHA, MAL TE OIÇO COM TANTO BARULHO! DIZ À TUA MÃE QUE VOU AGORA PARA AÍ!”*

* Köniek Osga

Encontros ao luar - O delírio

Mélita apura o ouvido, para melhor discernir o estranho gemer… “especuladôôôô… sou especuladôôôô”. Para seu grande espanto, o miar brasileiro é acompanhado por uns difusos acordes de violão e um roçagar de samba. Deixando cair o queixo e arregalando ligeiramente os olhos, em espanto, Mª Amélia apercebe-se, contudo de que conhece aquela voz…

A enfermeira que pouco antes a informara sobre o capelão passa junto à sua cama, com um estranho sorriso nos lábios, parecendo deslizar, com os lábios pintados de carmim e aquilo que lhe parecem sapatos de baile, em vez das habituais chanatas brancas e práticas com que antes se deslocava chiando. Cresce no seu peito um sentimento que, caso ligasse mais ao cinema de culto do que ao chá, poderia identificar como Felliniano.

Chega às suas narinas um forte cheiro a vinho carrascão, misturado com anis. Com um formigueiro no peito, sente o coração a disparar, mas as batidas registadas pela máquina continuam discretas, sem perder a compostura (o que seria realmente impróprio). Recordando a sua postura e resma de apelidos, e sacudindo um receio que considera algo popularuncho, ergue o olhar em volta… Não consegue acreditar na imagem que a fita da parede em frente!

Engasgando o pânico que lhe sobe na garganta, encara os olhos caninos de um Pierrot que, estáticos, seguram uma lágrima, num enorme quadro em frente à sua cama. Horrorizada, Mélita não consegue reprimir um grito! Julga estar, afinal, morta e ter aterrado no inferno, mas decide que ficou irremediavelmente louca quando ouve vê o Pierrot surpreendido a erguer a sobrancelha e o ouve perguntar: “porque grita? D. Mª Amélia?... Acorde!”.

Mélita ergue as pálpebras com violência, perdendo três pestanas com o embate e vê a cara da enfermeira, preocupada e já sem batom, tão perto de si que lhe sente o odor a alho do bacalhau à Zé do Pipo do refeitório do hospital.

“Onde estou?!” – pergunta num sopro, ao mesmo tempo que engole uma golfada de ar.

“Está na CUF, minha senhora. Teve um pesadelo!”.

A pobre Amélia olha imediatamente a parede em frente, ainda aflita. Repara, com alívio, que aquela está despida no seu tom azulado e, notando que a única coisa que lhe chega ao nariz é o aroma do éter, suspira, consolada. Recuperando a pose, franze a testa e ordena à enfermeira que se afaste dela, que já está bem (que mania tem esta gentinha de andar sempre colada às pessoas!). A enfermeira, Palmira de seu nome, afasta-se, enjeitada e resmungando imperceptivelmente entre dentes “deves-achar-deves-é-só-manias-o-que-me-vale-é-que-a-reforma-já-não-anda-longe-farta-de-aturar-isto-estou-eu-porque-não-fui-para-um-hospital-público”.

Exalando novo suspiro de descontracção, não sem antes recompor alguns cabelos desalinhados enquanto mira um pequeno espelho de maquilhagem, baixa as pálpebras e relaxa… O breve instante de paz é interrompido e os cabelos da nuca ficam arrepiados pelo gemido familiar que julgava fazer parte do sonho… “Eeeesssspaculadôôô”, eu sou “espaculadô…”!...*

*Köniek Mipo

Interrupção em "Encontros ao luar", para breve parêntesis com apresentação de resultado de pesquisa na internet:


(Maria Amélia da Silva)

Maria Amélia's father is Frederico Januário da Silva and her mother was Maria Pinheiro de Andrade. Her maternal grandparents were Joaquim Francisco de Andrade and Emergenciana Rosa Pinheiro. She is the eighth of ten children. She has two brothers and seven sisters, named Olimpio, Frederico, Hilda, Julieta, Analia, Regina, Emilia, Virginia and Elisa. General Notes Tia pequena Occupation Details Maria Amélia's occupation was sofreu um derrame e morou muitos anos com Elisa.)


Encontros ao luar - O paciente enigmático

Amélinha, moribunda, vê-se prostrada numa cama de ferro, já com pouca tinta, num quarto pequeno e estreito, com uma janela alta e pouco larga, que dava para um saguão, de onde lhe chegava um cheiro a comida misturado com restos da mesma., e com paredes harmoniosamente pintadas de côr … verde água, num Hospital que lhe disseram chamar-se CUF; ou será uma sociedade secreta? - Vagueia a mente de Amélinha (Clínica das Unhas Finíssimas ou será Cridas!!! Usem Fio dental, ou será ………………).

Pois é! Mª Amélia consegue finalmente abrir o seu olho esquerdo, trémulo, enrugado, ainda com remelas, resultantes dos quilos de maquilhagem que não conseguira limpar, e vislumbra em seu redor toda a mancha verde água que ressalta das paredes do seu quarto. Credo!!!! O Verde persegue-me! Lentamente abre o olho direito, também enrugado e remelento, tentando fazer o reconhecimento do local onde se encontra; (nesta idade as Tias fazem um género de maquilhagem muito carregado e normalmente não acertam com as zonas a realçar, como resultado parecem umas bonecas verdadeiramente apalhaçadas. Isto é um aparte!).

Quer movimentar-se, mas repara que uns tubos transparentes e finos, onde circula um líquido esverdeado, a mantêm agarrada a um aparelho que Amélinha identifica como sendo do controlo das suas batidas cardíacas. Estas são fracas, espaçadas, lentas, mas finíssimas, elegantes e “pianíssimas“, como Amélinha sempre foi.

"A Zézinha Fortunato Salgado de Castel Branco e a Dádinha Bettencourt devem estar num sobressalto, coitadas. Naturalmente já avisaram a Tatão!"

Neste vaguear comezinho da sua mente, Amélinha ouve incrédula um gemido de timbre contrastante, gritado em sol sustenido, de vibrante intenso e profundo, que outrora fizera já parte do seu universo. Quem seria?! De onde viria?! O gemido intensificara-se numa dinâmica crescendo.

Amélinha, num forte desejo de identificar o dono de tal gemido, faz disparar os apitos do aparelho que regula o seu frágil e dócil coração.

A enfermeira de serviço corre em seu auxílio, e Amélinha vê aqui a solução para a sua inquietante curiosidade. Perguntaria à enfermeira? Não, não se rebaixaria a tanto. A sua classe não quadrilha com enfermeiras, ainda por cima nem sequer era a enfermeira chefe!
Num repentino vislumbre, lembrou-se: "Vou pedir que chamem o capelão!"

- Sra. Enfermeira, quero falar com o capelão. – Sim este seria a pessoa ideal para informa-la sobre a identidade de quem carregava tão intenso gemido. A enfermeira ao ver tão moribunda senhora, correu a chamar essa ilustre pessoa. Correr foi também o que a trouxe quase no mesmo instante.

- Minha senhora, o capelão despediu-se. Parece que o novo governo pretende criar uma lei que retira todos os capelões dos Hospitais públicos. O nosso, amuado, não esperou pela lei. Saiu hoje de manhã.

Mª Amélia fez cantar novamente os apitos agudos da sua já familiar máquina de batidas cardíacas.

Ao longe volta a ouvir o intrigante gemido, mas agora a ele juntam-se algumas palavra.- AAAAAAAIIIIII……. “ Eeeesssspaculadôôô”, eu sou “espaculadô” ( entenda-se especulador ).*

*Köniek Catarina

Encontros ao luar - O incidente

Estava a tia Mª Amélia a presidir à reunião improvisada no Clube do Chá Verde, quando começa a sentir uns tremores, uns suores frios, a língua a enrolar-se e um aperto brutal no peito. Dá uns passos atrás, cambaleando até um maple que estava num canto do salão. As amigas, entre a surpresa e a aprensão, desatam a correr em sua direcção, tirando a tia Maria da Madredeus Collares Bourbón y Tarragona que, com os seus 96 anos, se foi arrastando com o seu andarilho, seguindo, porém, o caminho exacto das outras.

A tia Mª Amélia olhava para as caras que se perfilavam em cima dela e, no meio do burburinho que conseguia ouvir, lá murmurou "João Bernardo"... As amigas, intrigadas, olharam-se e acabaram por se concentrar, de novo, no estado de saúde da sua amiga: -"Oh filha, mas o que é que tu sentes? Dói-te alguma coisa, estás com uma baixa de tensão?"- perguntou a tia Maria Theresa.

-"Ataque cardíaco...te'fone e aspirina...a carteira?"- respodeu a tia Mª Amélia com a voz tremida e muito fraca.

A tia Maria Theresa correu em direcção à carteira da amiga e tirou duas aspirinas que imediatamente dissolveu em água e deu a beber à pobre criatura que definhava no maple do canto. De seguida, ligou para o 112 e apenas disse: -"Ataque cardíaco. A minha amiga tomou duas aspirinas e está sentada aqui, na Rua do Sacramento à Lapa." - Orgulhosa, desligou o telefone, dando graças à sua neta Mafaldinha, que lhe tinha dado um "print" dum mail que tinha recebido, sobre como actuar em caso de ataque cardíaco.

A tia Mª Amélia, apesar de suar abundantemente, tinha serenado, pelo que as amigas começaram a discutir qual o hospital mais apropriado para o internamento: -"Então, filha...aquele para onde vamos sempre aqui na Infante Santo"- propôs a tia Maria Cândida Peixoto de Lemos.

-"Mas esse não é daqueles que se pagam?"- perguntou a tia Maria Eduarda Bettencourt.

-"Oh filha, sei cá! É a CUF...mas os hospitais não se pagam todos?"- retorquiu Mª Cândida.

"Tenho ouvido dizer que o Hospital de Santa Maria é o melhor para emergências"- disse Maria Eduarda.

-"Ai, Credo, filha...que horror! A Maria Amélia numa enfermaria com mais não sei quantos ciganos e pretinhos?"- insurgiu-se, muito indignada, a tia Maria José Fortunato Salgado de Castel Branco.

-"Eu não me responsabilizo por qualquer montante a pagar, como caução, na CUF"- afirmou Mª Cândida.

-"Mas a Maria Amélia quer lá ir para Santa Maria, filha! Que disparate. Vai para a CUF. Até quem é lá oftalmologista é o Joãozinho da Carminho Rodrigues Sampaio e Olazabal Drummond"- tornou à carga Maria José.

-"O melhor é te'fonarmos à Tatão. Ela, como filha, é que sabe onde pôr a mãe"- disse Maria Theresa. Quando a tia Maria Theresa ligava para a Tatão, filha legítima de Maria Amélia e Manecas, que se tinha mudado há pouco para o Banzão, para uma casa lindíssima com vista sobre o mar, chegava ao pé dela Maria da Madredeus Collares Bourbón y Tarragona, com o seu andarilho, perguntando: - "Afinal, o que se passou com a Amelinha?"*

*Köniek Checo

Encontros ao luar - Os mistérios do Chá Verde

Havia, sim, contas a ajustar...

Ao chegar à Rua do Sacramento à Lapa, onde se situava a sede do "Chá Verde das Cinco", a Tia Mª Amélia, impelida por uma força maior, abriu a porta do "taxe", antes de este parar, e em passo de corrida dirigiu-se para a entrada da sede do "CVC" onde a esperava o Armindo, velho porteiro da Associação, com a sua farda cinzenta já coçada.

Subiu as escadas de 2 em 2 degraus, devido ao "segredo do chá Verde", e entrou na sala de estar já esbaforida!

"- Onde está ele? Onde está ele?"

Todas as sócias presentes ficaram perplexas ao ver tal aparição. Esperaram que ela se acalmasse e foram-"no" buscar.

Antes ainda "dele" chegar, entrou Deolinda, criada velha da associação, casada com o Armindo porteiro. Empurrava um carrinho onde vinha um ENORME bule de chá com água fumegante. Colocou as chávenas na estranha mesa central (de forma oval, com lugar para 15 pessoas sentadas e uma entrada pelo lado junto à janela) e aí deixou o bule, retirando-se logo de seguida como diziam as regras.

Eis senão quando aparece "ele"! Sim, ele, Zé Verde, vindo directamente do túnel que liga a penitenciaria ao 2º andar do nº 23 da Rua do Sacramento. Vinha amargurado por ter de ceder pela centésima vigésima quinta vez a mais uma chantagem das senhoras associadas do CVC.

Seguindo o ritual, uivou 3 vezes e entrou pela abertura lateral da mesa colocando-se ao centro. Logo de seguida, todas as senhoras fizeram uma vénia e sentaram-se à roda da mesa. Com muita dificuldade, Zé Verde encheu cada uma das chávenas, pousou o bule e, pela centésima vigésima quinta vez, mordendo os lábios, mergulhou o seu dedo indicador esquerdo na água escaldante de cada uma das chávenas, tomando esta uma côr térrea.
Acabado este cerimonial, Zé Verde retirou-se, e como manda a tradição, todas as presentes deram 3 vivas para o ar e engoliram o poderoso conteúdo das suas chávenas de um só trago. Lá começaram os "AHG" , "LHAK", "AIII" , apenas interrompidos pela brusca entrada do taxista na sala, com o pobre do Armindo agarrado às suas calças:

"-OH MINHA XENHORA, ESTOU ALI À ESPERA QUE ME VENHA PAGAR E AINDA NÃO REXEBI UM TOXTÃO!"

Resolvida a situação, com o pobre do Armindo a pedir desculpa às senhoras enquanto repreendia o Hélio taxista pela sua incursão na sala, lá apagaram as luzes acenderam as velas e, na sequência do que estavam a fazer, começaram a conspirar. Tomando a palavra, a tia Mª Amélia disse:

"- Meninas, temos de fazer alguma coisa para impedir que aquela que me desgraçou a vida viva feliz para sempre!"*

*Köniek Osga

Encontros ao luar - O segredo de Rosemary

Sabes lá!

A tia Maria Amélia descobriu tudo numa "vernissage" da Catarina Pinto Leite, na Galeria São Mamede. Entre um petit-four e um gole de sumo de laranja, a meio duma conversa animada com a Marquesa dos Antúrios Murchos, Dona Mariana Telles Sabóia Bruges Saavedra Carvalho Wellington, sente a alma caír-lhe aos pés quando esta lhe apresenta um autêntica "bomba" que desde há três horas causava, sobretudo junto do público masculino, um verdadeiro burburinho.

Era, nem mais nem menos, que a sua antiga criada Rosa, transfigurada numa esbelta e aínda atraente senhora, que dava, agora, pelo nome de Rosemary Würtenberg, duquesa de Vaduz, Liechtenstein, pelo casamento em segundas núpcias do duque do mesmo nome.

Já depois deste choque, foi a Marquesa dos Antúrios Murchos que, sem ter notado absolutamente nada, lhe contou os pormenores escaldantes que circulavam por Lisboa sobre esta nova personagem, Rosemary.

Ao saber que "Rosa" não era, na realidade, viúva e que circulava o rumor de que tinha marido no Curral das Freiras, embora o pensasse morto, depressa se desembaraçou das amigas e pediu à "piquena" da portaria da Galeria que lhe chamasse um "taxe" para a levar à Lapa. Era neste bairro selecto de Lisboa que morava, na Rua de Sant'Ana, mas era para a Rua do Sacramento que se dirigia. Era lá que ficava a sede secreta do "Chá Verde das Cinco", arqui-rival do IBS, ao qual pertencia, agora, aquela que outrora fora sua fidelíssima criada, casada com o verdadeiro amor da sua vida. Havia contas a ajustar.*

*Köniek Checo

Encontros ao luar - Do Passado ao Presente

TU NÃO SABES??!??

A Rosa, com a sua marreca altiva e carradas de boa vontade, lá casou com o Xico. Mas mais tarde separou-se. Não aguentou a pressão. Resolveu ir tratar de si própria, largou o Xico e ingressou numa congregação secreta de nome "IBS" onde ainda hoje busca o Ideal da Beleza Suprema.


O Xico da Camacha, coitado, vive escorraçado no Curral das Freiras. Assim que pôde, o tio Manecas, que Deus o tenha, fez-lhe a vida negra de tal forma que o pobre homem não teve outro remédio senão fingir a sua própria morte.

Quanto à Tia Amélia... isso já é outra história.

Como já te disse, ela faz parte de uma associação secreta, "Chá Verde das Cinco" que... bem... não te conto. Deixo ao teu cuidado uma aprofundada investigação. Pode ser que o teu relato venha a ser bem mais interessante que o meu.*

*Köniek Osga

Encontros ao luar - As interrogações

Por isso é que o Joe Berardo (ex João Bernardo) não consegue dizer CMVM (Comissão de Mercado de Valores Mobiliários) e diz apenas CVM...bem como "Admestraçã" em vez de "Administração" e "Presedên" em vez de "Presidente"! Perdeu as papilas e está de luto! Daí o vestir-se sempre de pretoooo..... Aha... I see....

O Xico da Camacha aínda é vivo? Chegou a casar-se com a Rosa? O que é que a tia Maria Amélia sabe disto tudo? Se a Rosa e o Xico continuassem casados, seria a tia Mª Amélia capaz de pôr um koniëk à situação? É que o tio Manecas já deixou a pena, entretanto.*

*Köniek Checo

Encontros ao luar - A lambidela

Só que...

...o que tu não sabes é que a deficiência na fala do João Bernardo se deve à sua curiosidade insaciável.

Pois é, o menino João Bernardo, fruto do amor proibido entre a Tia Mª Amélia e o Xico da Camacha, resolveu testar o novo objecto que tinha chegado ao lar da família que o acolhia: um congelador! Nada como abrir a porta de um congelador a -30º, antes da descongelação, e dar-lhe uma enorme lambidela!

SIM, UMA ENORME LAMBIDELA!!!

E foi assim que, a partir do momento em que parte das papilas gostativas do João Bernardo ficaram para sempre gravadas num Siemens, a sua forma de comunicar se alterou também para sempre...


Há quem diga, que tal deficiência apareceu mais tarde, depois de uma refeição de ouro e diamantes, mas isso são as más línguas, as bocas invejosas!

O certo é que o João Bernardo, agora Joe Berardo, passou a andar de luto em memória das ditas papilas, que para ele não passam de papias.

Uma infelicidade só ultrapassada pela expectativa do reencontro com a sua mãe. Tal como Marco, também Berardo deseja ardentemente ter um macaquinho que o acompanhe na busca das suas raízes.*


*Köniek Osga

Encontros ao luar - O início

Cá para mim, o João Bernardo é fruto dum amor proibido! A tia Maria Amélia, nos seus tempos de juventude, teve uma aventura com o namorado madeirense da sua criada de fora, a Rosa. Todos pensavam ser filho do seu marido, o tio Manecas Bacellar Osório de Castro d'Orey Albuquerque e Lorena Daun O'Neill Sacadura Telles de Menezes e Fontoura Athayde, mas este, por vias travessas, veio a saber a verdade, pelo que o destino do recém-nascido foi o "desterro" para a Ilha da Madeira, na casa duns familiares dum antigo empregado da casa, que, entretanto, se mudara para Angola e, daí, para a África do Sul onde mais tarde faria fortuna nas minas de ouro e diamantes.

João Bernardo, assim chamado pela tia Mª Amélia, cresceu nas ruas do Funchal, onde lhe chamavam "Joe Berardo" por manifesta deficiência de fala.

Já os pais de Catarina Pestana, duma classe mais popular, sofriam do mesmo mal, nunca tendo conseguido pronunciar correctamente o nome da filha. Cresceram em Macau e "Catalina" era o máximo que conseguiam.

Coitadinho de Portugal...*

*Köniek Checo