quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Encontros ao luar - A surdez



Enquanto isso, na Quinta de Sto Antonino, a uns bons kms dali, a tia Mª Madredeus suspirava de ansiedade: “Aaaahhhh.... Serei eu mais uma vez a culpada...?”

Os remorsos eram como pequenos caroços crivados de pioneses que subiam e desciam no estômago em forma de espiral: “Será que contribuí para o mau estar da Amélinha?”

“Não me recordo, mas com tanta desgraça que já aconteceu àquela família... ...e só à minha custa... Aaaahhhh....”

Não podendo mais conter as recordações, que explodiram na sua memória como foguetes ensurdecedores, LEMBROU-SE DE UM DAQUELES DIAS!

Sim, daquele dia ventoso quando, ao embalar numa descida agarrada ao carrinho de rolamentos que Olímpio tinha construído para si, saltou sobre um canteiro do jardim da família da sua amiga Amélinha, e veio embater com força na avó Emergenciana.

POBRE SENHORA! COMO TINHA FICADO!

Esta era uma imagem que permanecia gravada na sua memória como um quadro vivo: a velha senhora, toda engelhada pelos anos, ali caída de pernas para o ar, com as saias pela cintura , de boca escancarada e olhos MUITO, MUITO abertos... ...com o tosco travão de mão do carrinho de rolamentos enterrado na testa, qual unicórnio espantado!!!

MEU DEUS! QUE HORROR DE DIA: o vento soprava, soprava, a criadagem gritava, gritava, a cabeça rodava, rodava...

Ela e a sua louca mania de andar de rodas, já tanto mal tinham causado à doce família da Amélinha...

Primeiro foi com o carrinho de bébé, depois com o triciclo, a seguir com o carrinho de rolamentos, pouco tempo depois com os patins, mais tarde com a viatura do Alfredo, há uns 20 anos com o carrinho de chá.... e agora seria culpa do andarilho? Que mais poderia acontecer...

Nisto os seus pensamentos foram bruscamente interrompidos por um “...senhora, o belo anarquista pergunta se a senhora ainda monta?”

“O QUÊ, RAPARIGA, ESTÁS DOIDA!?!”

“Mas..., oh minha senhora, eu só disse que está ali fora o Hélio taxista e que pergunta se a senhora já está pronta?”

“AH!... Olha, diz-lhe que dentro de 15 minutos estarei à porta! Ainda tenho de falar à menina Tatão e depois, como sabes, demoro sempre um bocadinho a deslocar-me”

“Que aborrecimento, não consigo ouvir nada sem o aparelho... mas fica-me tão mal! Ummm... deixa cá ver... Tatão, Tatão... Ora bem, Tatão: 9 6 0 5 5 5 0 0 .... Estou? Tatão? És tu, filha? Está tudo bem? E como estão os teus gémeos? Ouvi dizer que o Bernardo já está a acabar o curso de Arquitectura! E o Frederico, Tatão? Ainda namora com aquela pequena... a Vanessa qualquer coisa? AH! Pois é, pois é... Olha, filha, deixa estar que ele ainda acaba por abrir os olhos (isto se entretanto não der uma valente cabeçada). E já estás na CUF? E então? Como está a mãe? O QUÊ? NÃO TE OIÇO! Ah, agora sim! Mas que gritaria é essa? A TUA MÃE AGARRADA A UM TIO LOURO? O QUÊ? AH! ENROLADA NUM FIO DE SORO! MAS PORQUÊ? TENTOU LEVANTAR-SE? TATÃOZINHA, O QUE SE PASSA? O QUÊ ? ESTÃO A FRITAR UM PATO MOLHADO? OH FILHA, QUE CONFUSÃO! NÃO TE ENTENDO... AH... ESTÃO A GRITAR NO QUARTO AO LADO!!! PEDEM UM ESPANADOR???? AH, GRITAM POR ESPACULADÔÔÔ! CREDO, FILHA, O QUE É ISSO? OLHA, TATÃOZINHA, MAL TE OIÇO COM TANTO BARULHO! DIZ À TUA MÃE QUE VOU AGORA PARA AÍ!”*

* Köniek Osga

1 comentário:

Osga Esparramada disse...

Madredeus: tu és a minha personagem preferida!!!