quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Encontros ao luar - Porque no te callas?!

Maria Theresa Mello Sampaio Metello Guimarães olhava, pensativa, da janela do seu quarto para a rua. Na realidade, esperava o taxi de Helio que trazia a sua amiga Maria da Madredeus e que passaria por sua casa, antes de rumarem, já as duas, ao hospital da CUF, onde, aínda acamada, se encontrava Amelinha.
Perdida nos seus pensamentos, em que as questões do avançar da idade tomavam uma dimensão crescente, não ouviu Alcídia, a sua velha criada, chamar por si.

-Minha Senhora... ... Minha Senhora...
-Diga Alcídia... estava aqui a ver se via a Sra. D. Mª da Madredeus chegar. Já cá devia estar, coitada... anda cada vez com mais dificuldade.
-Mas, oh Minha Senhora, é o telefone! Não consigo perceber bem...mas parece-me ser do estrangeiro.
-Do estrangeiro? Não será nenhum dos Meninos, Alcídia? Deixe ver- A tia Maria Theresa, nada adepta das novas tecnologias, foi atender o telefone preto e pesadão à saleta que, muito pomposamente, chamavam a “casa dos telefones”. Sentou-se na “bergère” D. João V, cruzou a perna e pegou no auscultador – Estou...? Quem fala?- perguntou, franzindo o sobrolho.
-Hola, que tal?- responderam do outro lado da linha.
-Pi...Pi...Pil...Pilar, és tu?
-Porsupuesto. Claro que si, mujer! Soy Pilar. Oiga...que pasa con Amelita, por Dios?
- Ai, Pilar...há tanto tempo que ninguém sabia de ti...sabes, bem...é que a Amelinha sentiu-se mal e desmaiou lá no clube, na Sacramento à Lapa... mas como é que soubeste que lhe tinha acontecido alguma coisa...? Foi assim, de repente... agora está internada na CUF da Infante Santo e...e...e eu...bem, até estou à espera da Madredeus para irmos juntas visitá-la mas não há maneira de chegar o taxi...Bem sei que vem de longe, lá de Sto. Antonino...coitada da Madredeus, para lá desterrada...mas é o que ela quer, ou pelo menos é o que diz. Eu, naquela idade nunca me aventuraria a viver tão longe! Olha a Amélinha, se não estivesse ao pé dum hospital! Até fui eu que liguei para as ambulâncias que vieram logo, depois de eu lhe ter dado duas aspirinas...como me tinha ensinado a minha neta Mafaldinha...lembras-te da minha neta, não lemb...
-Por que no te callas?!- interrompeu Pilar, furibunda

Maria Theresa gelou. Acontecia-lhe sempre o mesmo quando estava na presença de Pilar ou, como neste caso, bastando ouvir a sua voz. Fazia sempre o que não devia e, certo e sabido, seria sempre repreendida ou mesmo humilhada. Mas não era só ela. Todas as amigas sentiam um enorme respeito, mesmo algum medo, por esta personagem déspota, de porte altivo. Pilar, Marquesa Ginecológica, pertencia aos “Grandes de España”, próxima da Família Real, desde Afonso VI de Leão e Castela que a sua família aconselhava, nos mais diversos planos, as várias Casas Reais que vieram a formar a actual Espanha. O mesmo acontecera, aínda há relativamente pouco tempo, com uma cimeira ibero-latina, no Chile.

Os Marqueses Ginecológicos tinham, de facto, muito poder e corriam rumores de que se estariam a empenhar na anexação de Portugal. O próprio governo português dera recentemente um forte contributo nesse sentido, ao mandar fechar todas as maternidades da zona raiana, fazendo com que milhares de mulheres portuguesas rumassem aos hospitais espanhóis. Badajoz era um exemplo vivo disso mesmo. Oriundos de Sevilha, os Marqueses Ginecológicos, Pilar e Raúl, descendiam duma família cigana e era bem patente essa herança em tudo aquilo que faziam. Sem escrúpulos, recebiam dez por cento de todas as consultas de obstetrícia e ginecologia da região da Andaluzia. Paquito e Juanito, seus filhos mais velhos, asseguravam-se de que a situação não saíria do seu controlo.

-Sim, sim...Pilar, eu calo-me.
-Mira, Teresa, hay cosas que desconoces. Me voy a Lisboa ahora mismo, mujer. Mañana hablaremos mejor, vale?
-Concerteza...vale, vale...

Maria Theresa pousou o telefone, tremendo aínda. Levantou-se e, cambaleando, dirigiu-se de novo à janela do seu quarto. Afastou a cortina e vislumbrou um taxi ao fundo da rua. Esperou que parasse à sua porta e desceu ao encontro da sua amiga que, embora uns bons anos mais velha, aínda era o seu alicerce.

-Olá Madredeus, nem queiras saber o que me aconteceu agora mesmo...
-Não obrigada, filha. Já almocei e nunca iria comer uma “sandes” de torresmo! Olha só para o que te deu agora!!!
-Não é isso, que disparate... Ai, deixa lá...na CUF conto-te- e, debruçando-se sobre o banco da frente, diz ao Hélio –Vamos, então, para a CUF, Hélio-

O percurso foi rápido e sem incidentes de maior. Madredeus aínda dormitou, com o andarilho a seu lado, batendo-lhe na cabeça a cada curva ou buraco, fazendo-lhe soltar um gemido ou um articular imperceptível. Já Maria Theresa tremia com a expectativa de ter, a par com as amigas, de conviver, não sabia por quanto tempo, com a terrível Pilar.
Chegadas ao hospital e depois de dez minutos a tentar forçar o andarilho para fora do taxi e outros dez ao ritmo da tia Maria da Madredeus até à porta, ambas se deparam com uma anormal concentração de médicos, enfermeiros e outros empregados da CUF.

-O que se passa aqui?- perguntou a tia Maria Theresa a um maqueiro de olhar arregalado.
-Olhe, Minha Senhora, é um senhor que está no 301 que não pára de gritar, mas é tão assustador que já não há quem queira por lá passar...
-Não me diga! Olhe que eu tenho uma amiga no quarto 303. Não me diga que está sozinha?

De repente, num uivo arrepiante, ouve-se por todo o hospital – Especuladôôôôôôôuu, ê sôu espacüladôôôôô...-Ah...e não é que, no meio disto tudo, me esqueci do espanador que a Tatão me pediu...? Ou não era um espanador...?- exclamou, agarrada ao seu andarilho, a tia Maria da Madredeus.*

*Köniek Checo

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