sábado, 12 de janeiro de 2008

Encontros ao luar - A epifania

- Estou, Theresa?!
Oh filha, nem imaginas o que aconteceu!
E tinha mesmo de ser eu!
Um delinquente roubou-me a carteira!
O bule lá dentro, sem eira nem beira!
Assim mesmo, de caras!
Estou a tremer que nem verdes varas!

Theresa sentiu um calafrio a percorrer-lhe o corpo. Para disfarçar o choque, saiu para fora do quarto privativo, tentando mexer-se com a maior naturalidade possível.

- Não posso acreditar! E tens a certeza de que foi só um delinquente, Carminho? Não seria alguém que sabia do nosso segredo? E o que é que eu digo à Amelinha? – perguntou Theresa, atropelando as palavras ao telefone.

- Por favor, à Amelinha nem falar!
Não a podemos perturbar!
Inventa um imprevisto qualquer!
Uma coisa de mulher!
O Armindo já foi à esquadra,
Para tratar da papelada.
Do bule nem vai falar
Que dele ninguém se pode inteirar!
Espero que tenha sido mesmo só um delinquente,
Não consigo pensar a quente!
Temos de ficar caladas,
Ai se o chá pára nas gargantas erradas!

Theresa despediu-se, aflita e regressou ao quarto, enquanto tentava esconder o ar comprometido. Amelinha observava-a com um olhar de interrogação.

- Que se passa, Theresa? A Carminho sempre vem?

Theresa acelerou o raciocínio e procurou uma mentira branca.

- Vê lá tu que ela afinal não pode. Tropeçou num buraco quando ia a sair de casa e torceu o pé. Parece que não é nada de grave, mas está com a perna estendida e gelo no inchaço. Vai ficar de repouso hoje.

Madredeus continuava surda que nem uma porta…

- O quê? Encontrou o Zé? Vai para a Lisnave? Perdida com um palhaço?! Tem um almoço hoje? Oh, filha, não percebo nada!

Elevando o tom de voz e baixando o nível de paciência, Theresa replicou-lhe:

- Depois explico-te, Madredeus. Agora, temos de ir andando, que tenho de ir para o cabeleireiro. Esta semana tem sido uma correria tão grande, que ainda nem tive tempo compor o cabelo.

Amelinha estava desgostosa por ver o delicado chá adiado, mas, sem outro remédio, despediu-se das amigas, estranhando só ao de leve aquela visita que de repente se tinha tornado de médico. Despediu-se das amigas e respirou fundo.

Meia hora depois, Theresa estava em casa com Madredeus, que continuava sem perceber porque tinha sido arrancada do quarto de hospital da Amelinha e massacrava a amiga com interrogações. Longe de ouvidos indiscretos, Theresa finalmente berrou o dramático incidente do bule. Madredeus ficou subitamente silenciosa e o seu olhar de desorientação apagou-se. A sua testa enrugou-se ainda mais e os seus olhos ficaram pensativos.

- Que podemos fazer agora, Madredeus?!... Eu disse: E AGORA? QUE FAZEMOS?

- Eu ouvi-te, filha. Calma. Eu já temia o dia em que isto ia acontecer… Nunca pensei que fosse tão depressa…

- O que queres dizer com isso? Madredeus? Mas tu sabes de alguma coisa que…?

Madredeus limitou-se a fitar Theresa e, num tom grave, instruiu-lhe:

- Não podemos perder mais tempo. Temos de falar já com a Pilar.

Entretanto, na CUF, Amelinha continuava ligeiramente amuada por não conseguir o seu precioso líquido verde. “Que maçada. Aqui presa e, agora, nem a alegria do chá”.

O paciente misterioso do 301 recomeçou a gritar. “E agora mais este, para me arrepiar. É que não dá sossego a ninguém! Quase que parece uma voz de outra vida. Mas porque é que parece que já o ouvi?! Que coisa!... Nem descansar posso. É especulador, especulador, especulador, não sai disto… Meu Deus!!...”. Amelinha subitamente interrompeu o seu rol de queixas mentais. “Meu Deus!... Mas é… Mas não pode ser! Não pode ser ele!... Esta voz!... Esta voz!... É a voz…. É a voz do Xico!!!”. Subitamente, Amelinha sentiu-se açambarcada por um tsunami do Passado…

Köniek Mipo

1 comentário:

Osga Esparramada disse...

FANTÁSTICO, KÖNIEK MIPO!!!
TUDO SE ENCAMINHA MESMO PARA OS ENCONTROS AO LUAR!!!

TOCA A ARREGAÇAR MANGAS, KÖNIEK CHECO!

KÖNIEKPINHA: DESTA RONDA NÃO TE ESCAPAS!!!