Mélita apura o ouvido, para melhor discernir o estranho gemer… “especuladôôôô… sou especuladôôôô”. Para seu grande espanto, o miar brasileiro é acompanhado por uns difusos acordes de violão e um roçagar de samba. Deixando cair o queixo e arregalando ligeiramente os olhos, em espanto, Mª Amélia apercebe-se, contudo de que conhece aquela voz…
A enfermeira que pouco antes a informara sobre o capelão passa junto à sua cama, com um estranho sorriso nos lábios, parecendo deslizar, com os lábios pintados de carmim e aquilo que lhe parecem sapatos de baile, em vez das habituais chanatas brancas e práticas com que antes se deslocava chiando. Cresce no seu peito um sentimento que, caso ligasse mais ao cinema de culto do que ao chá, poderia identificar como Felliniano.
Chega às suas narinas um forte cheiro a vinho carrascão, misturado com anis. Com um formigueiro no peito, sente o coração a disparar, mas as batidas registadas pela máquina continuam discretas, sem perder a compostura (o que seria realmente impróprio). Recordando a sua postura e resma de apelidos, e sacudindo um receio que considera algo popularuncho, ergue o olhar em volta… Não consegue acreditar na imagem que a fita da parede em frente!
Engasgando o pânico que lhe sobe na garganta, encara os olhos caninos de um Pierrot que, estáticos, seguram uma lágrima, num enorme quadro em frente à sua cama. Horrorizada, Mélita não consegue reprimir um grito! Julga estar, afinal, morta e ter aterrado no inferno, mas decide que ficou irremediavelmente louca quando ouve vê o Pierrot surpreendido a erguer a sobrancelha e o ouve perguntar: “porque grita? D. Mª Amélia?... Acorde!”.
Mélita ergue as pálpebras com violência, perdendo três pestanas com o embate e vê a cara da enfermeira, preocupada e já sem batom, tão perto de si que lhe sente o odor a alho do bacalhau à Zé do Pipo do refeitório do hospital.
“Onde estou?!” – pergunta num sopro, ao mesmo tempo que engole uma golfada de ar.
“Está na CUF, minha senhora. Teve um pesadelo!”.
A pobre Amélia olha imediatamente a parede em frente, ainda aflita. Repara, com alívio, que aquela está despida no seu tom azulado e, notando que a única coisa que lhe chega ao nariz é o aroma do éter, suspira, consolada. Recuperando a pose, franze a testa e ordena à enfermeira que se afaste dela, que já está bem (que mania tem esta gentinha de andar sempre colada às pessoas!). A enfermeira, Palmira de seu nome, afasta-se, enjeitada e resmungando imperceptivelmente entre dentes “deves-achar-deves-é-só-manias-o-que-me-vale-é-que-a-reforma-já-não-anda-longe-farta-de-aturar-isto-estou-eu-porque-não-fui-para-um-hospital-público”.
Exalando novo suspiro de descontracção, não sem antes recompor alguns cabelos desalinhados enquanto mira um pequeno espelho de maquilhagem, baixa as pálpebras e relaxa… O breve instante de paz é interrompido e os cabelos da nuca ficam arrepiados pelo gemido familiar que julgava fazer parte do sonho… “Eeeesssspaculadôôô”, eu sou “espaculadô…”!...*
*Köniek Mipo
A enfermeira que pouco antes a informara sobre o capelão passa junto à sua cama, com um estranho sorriso nos lábios, parecendo deslizar, com os lábios pintados de carmim e aquilo que lhe parecem sapatos de baile, em vez das habituais chanatas brancas e práticas com que antes se deslocava chiando. Cresce no seu peito um sentimento que, caso ligasse mais ao cinema de culto do que ao chá, poderia identificar como Felliniano.
Chega às suas narinas um forte cheiro a vinho carrascão, misturado com anis. Com um formigueiro no peito, sente o coração a disparar, mas as batidas registadas pela máquina continuam discretas, sem perder a compostura (o que seria realmente impróprio). Recordando a sua postura e resma de apelidos, e sacudindo um receio que considera algo popularuncho, ergue o olhar em volta… Não consegue acreditar na imagem que a fita da parede em frente!
Engasgando o pânico que lhe sobe na garganta, encara os olhos caninos de um Pierrot que, estáticos, seguram uma lágrima, num enorme quadro em frente à sua cama. Horrorizada, Mélita não consegue reprimir um grito! Julga estar, afinal, morta e ter aterrado no inferno, mas decide que ficou irremediavelmente louca quando ouve vê o Pierrot surpreendido a erguer a sobrancelha e o ouve perguntar: “porque grita? D. Mª Amélia?... Acorde!”.
Mélita ergue as pálpebras com violência, perdendo três pestanas com o embate e vê a cara da enfermeira, preocupada e já sem batom, tão perto de si que lhe sente o odor a alho do bacalhau à Zé do Pipo do refeitório do hospital.
“Onde estou?!” – pergunta num sopro, ao mesmo tempo que engole uma golfada de ar.
“Está na CUF, minha senhora. Teve um pesadelo!”.
A pobre Amélia olha imediatamente a parede em frente, ainda aflita. Repara, com alívio, que aquela está despida no seu tom azulado e, notando que a única coisa que lhe chega ao nariz é o aroma do éter, suspira, consolada. Recuperando a pose, franze a testa e ordena à enfermeira que se afaste dela, que já está bem (que mania tem esta gentinha de andar sempre colada às pessoas!). A enfermeira, Palmira de seu nome, afasta-se, enjeitada e resmungando imperceptivelmente entre dentes “deves-achar-deves-é-só-manias-o-que-me-vale-é-que-a-reforma-já-não-anda-longe-farta-de-aturar-isto-estou-eu-porque-não-fui-para-um-hospital-público”.
Exalando novo suspiro de descontracção, não sem antes recompor alguns cabelos desalinhados enquanto mira um pequeno espelho de maquilhagem, baixa as pálpebras e relaxa… O breve instante de paz é interrompido e os cabelos da nuca ficam arrepiados pelo gemido familiar que julgava fazer parte do sonho… “Eeeesssspaculadôôô”, eu sou “espaculadô…”!...*
*Köniek Mipo
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